
Acaba sendo comum assitir às obras de Shyamalan subestimando-as. Até mesmo quem conhece o diretor, o aprecia, vê sempre o viez do suspense como máxima. Erra. Cada vez com mais força o diretor indiano aprofunda seus filmes tendendo teorias sociológicas, que nem sempre são imagináveis em sinopses como a dessa obra.
Em “The Happening”, a natureza depois de assitir por tempos o homem se auto-extinguindo, resolve salvar-se, dando um ‘empuranzinho’ à população que a está levando junto, inutilizando o extinto humano de auto-preservação. O roteiro do longa faz caricatura. Generaliza e dá forças: o homem está se matando, inutilizado o sentido que o previne disso, o resultado é o suicídio em massa. O instinto máximo do homem vem se tornando a busca pela unicidade (sim, física) no mundo. “Perdemos contato. Com quem? Com todos.”
O homem em escala desevolutiva. Shyamalan desenvolve em seus personagens destacando que dentro do homem permance a animalidade e toda a fraqueza escondida atrás da racionalidade. O homem inerte frente ao que não controla, as ações dos personagens são como criaturas mínimas indo de um lado ao outro, em desespero, pela simples sobrevivência.
Há adição de comicidade no contexto. Como depois de anos inerte, o monstro levantasse, mostrando então a superioridade. Cômico ver a irônia de se fugir do vento ou pedir clemência à uma planta (de plástico).
O longa parece conter cada uma das vulnerabilidades do mundo humano. O que dizer quando, depois de inúmeros corpos se atirarem de um prédio, alguém olha para cima, olhando, talvez não, mas clama: “Meu Deus”. A fraqueza do homem frente a possibilidade de estar sozinho.
Existem deslizes: se em um momento é sútil e áspero dizendo “olha, é tudo falso” em outro é totalmente dispensável e panfletário quando diz “vocês mereceram tudo isso”. E se em uma cena sabe chocar deixando o subconsiente formar a imagem, no outro utiliza recursos de som para ‘atenuar’, estragando algo que provavelmente era brilhante.
Mas as sutilezas parecem somar mais. Na última cena citada, Shyamalan já se remenda. Depois do choque, o diretor contempla o pânico (o que prova que aquele recurso foi um dos mais infeliz de sua carreira) dentro de um carro, mas muito diferente do restante de sua filmografia, os passageiros sentem-se seguros trancados ali. Shyamalan eleva a câmera, um furo no isolamento humano dentro de suas invensões. John Leguizamo, ótimo, tenta acalmar mas está no seus olhos o que virá. Sutíl e áspero, triste.
E defendo que John Leguizamo não esteja sozinho na excelência do elenco apedrejado. A personagem caricatural e exagerada de Deschanel, culpada por um tiramissu. Mais seria só mesmo um tiramissu? O mundo ruiu antes que outra coisa acontecesse. E quando pondera suas ações, também não é pálida.
Wahlberg me agrada muito. O ser-humano entra em certo desconserto frente ao perigo. Não seria estereótipo demais se fosse o esperado? Certo que não é seu melhor momento, mas de ruim está longe. Talvez sua interpretação tenha um ponto máximo em um momento do filme, que talvez seja pura bobagem, a resposta ao tiramissu seria real ou apenas um perdão? Assim sendo a atuação de Mark Wahlberg não estaria excelente naquele momento?
Me corrói um pouco os momentos finais. Mas os inúmeros elogios que fiz, me faz repensar inúmeras vezes a respeito desse. Provavelmente, “The Happening” é mais um filme de Shyamalan que irei rever várias vezes e descobrirei sempre o novo. O Sergio Alpendre, do Chip Hazard, disse um ótima verdade na sua resenha desse mesmo filme. Poucos como Shyamalan nos fazem pensar tanto em suas obras nos dias de hoje. São pinturas à se reparar não na superfície, mas em cada pincelada. E isso não é ótimo?
THE HAPPENING




M. NIGHT SHYAMALAN:
Lady In The Water 




Unbreakable 



The Happening 



Signs 


The Sixth Sense 


The Village 
